O PECADO NÃO É DAS ESTRELAS

Há poucas semanas chegou aos cinemas o filme “A Culpa é das Estrelas”, versão cinematográfica do livro homônimo de John Green. Este, por sua vez, é inspirado na história real de Esther Grace Earl, uma jovem que aos dezesseis anos foi derrotada por um câncer com o qual lutou bravamente. Esther ficou conhecida por publicar a sua história na internet. Seu relato foi divulgado por ela mesma no seu canal de YouTube, plataforma ideal para mostrar sua personalidade paradoxalmente otimista. Sua vida serviu de inspiração para muitos e eventualmente se tornou um livro, This start won’t go out (A Estrela que Nunca Vai se Apagar). Se quiser conhecer mais da história um tanto inspiradora de Esther, você pode conferir aqui.

Voltando ao livro que deu origem ao filme, este não conta a história de Esther, mas de Hazel, uma jovem que sofre de câncer – tal qual sua inspiração. Na história, ela conhece Augustus, um jovem que já teve câncer. A partir daí começa-se uma amizade que se torna uma história de amor fofinha e dramática. Não, eu não vi o filme nem li o livro. Mas, a julgar pelo trailer e os comentários vistos até aqui… e tendo assistido Um Amor para Recordar na minha juventude, posso apenas imaginar que alguém vai morrer e o cinema todo se debulhará em lágrimas por isso. (Não quero soar pessimista nem demasiadamente crítico do gênero, mas convenhamos que a fórmula já está um tanto batida e previsível.)

É pecado assistir esse filme?

Então… Qual é o problema de mais uma inocente história de amor dramática? Antes de mais nada, não sou contra o filme nem considero pecado assisti-lo (ou ler o livro). Não há nada de errado nesta forma de entretenimento em si. A história, até onde sei, é emocionante e “bonititinha” – obviamente projetada para arrancar suspiros e lágrimas do seu público alvo: adolescentes. E é justamente aí que mora o perigo velado desta obra: o público alvo. Mais uma vez, antes que me acusem de ser ranzinza, insensível ou o que seja, eu não acho errado ler o livro ou ver o filme. Se você viu o filme e achou lindo demais e se emocionou com esta obra de ficção, peço apenas que você a tenha pelo que ela é: uma obra de ficção.

Qual é a ameaça de uma história dessas? Há duas, até onde sei.

A primeira é um tanto óbvia e comum a praticamente qualquer filme ou livro do gênero: por mais “real” que seja, não se passa de um conto de fadas. Não tenho dúvidas de que milhares de meninas sairão do cinema sonhando com o seu próprio Augustus. Consideremos apenas o seguinte quanto a isso:

1.  O livro prega uma amor fictício que não tem compromisso com a realidade. O amor retratado não abordará tanto uma visão cristã de serviço no matrimônio quanto uma busca hedonista desenfreada. Afinal, como toda boa história de amor, mesmo sem ter visto o filme tenho uma forte suspeita de que o casal terminará na cama sem ter se casado.

2.  Essa abordagem de amor irreal constrói a imaginação do adolescente sem a devida instrução. É óbvio que muitos que verão este filme sabem que não é real. Mas é, infelizmente, igualmente óbvio que o filme tem o potencial para criar nos corações da sua audiência uma visão de amor que eventualmente será dolorosamente frustrada por não condizer com a vida real.

Até aí, não há novidades, creio eu. Há inúmeros grupos cristãos e líderes de juventude dedicados a instruir seus jovens a buscar o padrão bíblico para relacionamentos. Há, porém, outra ameaça mais velada que eu nunca havia percebido. Confesso que até pouco tempo, eu não dava a mínima para este filme por achar que era, como tantos outros, mais uma história de amor-conto-de-fadas-adolescente que vai se tornar um sucesso e motivo de suspiros e sonhos de tantos. Todavia, me deparei com um artigo do blog do autor Tim Challies abordando o livro (para conferir o artigo em inglês, acesse aqui). Confesso que fiquei curioso, pois ele costuma escrever sobre muitos assuntos mais sérios – desde discussões de cessacionismo x continuísmo e disciplina na igreja até conselhos bíblicos para a vida conjugal. E, por se tratar de um livro para adolescentes, achei que fosse “fora da alçada” dele. Acabei lendo o artigo e a análise que ele apresenta do livro é, para mim, preocupante.

Após ser procurado por seus filhos – que queriam ler o livro de Green –, como pai atencioso, Challies leu o livro antes de permitir que seus filhos o fizessem. Achei interessante a seguinte hipótese levantada: ele entendeu o apelo de livros como Crepúsculo, Harry Potter e tantos outros que são sucesso com a garotada. Neste, porém, custou a enxergar o apelo – fora o romance, obviamente. Mas, ele oferece a seguinte teoria:

Até onde consigo enxergar, Green não descreve adolescentes tal como realmente são, mas como eles gostariam de ser percebidos. Lembro que na minha adolescência eu queria ser levado a sério e acreditava que palavras grandes e pensamentos profundos me dariam uma espécie de legitimação que eu, na verdade, não tinha. E é isso que Green faz: ele cria personagens que falam como, bem, homens de meia idade – personagens que tem um pano de fundo filosófico, uma expressão verbal e um vocabulário de alguém bem mais velho que elas.

Ok, trata-se de uma ficção, então o autor obviamente não tem compromisso com a realidade. Mas o perigo de um livro desses é o, novamente, o seu público alvo. Querendo ou não, quando pegamos um livro ou um filme para ver, a história discutirá – por mais fictícia que seja – algum aspecto com o qual podemos nos identificar. Posso ler Alice no País das Maravilhas, e de alguma forma encontrar algum valor ou conteúdo ali que trarei para a minha vida. (Óbvio que não vou começar a beber chá de cogumelo e usar chapéus loucos.) Mas a ficção apela para nós por duas razões: primeiro, pelo escapismo da realidade, uma vontade de fugir da nossa vida cotidiana; segundo, pois por meio dela conseguimos, de alguma forma, aprender a lidar com algo da nossa própria realidade com a qual nos identificamos, tal qual Frodo Baggins na sua luta contra o mal si mesmo na trilogia do Senhor dos Anéis.

O problema aqui, porém, é seguinte: o jovem que pegar este livro vai “se enxergar” na história. Ele vai olhar para as personagens que, em tese, tem a sua idade e em quem podem se espelhar. O problema é que Hazel e Augustus não são dois jovens de dezesseis anos de idade. São dois “adultos” adolescentes, pois são jovens descritos a partir da visão e experiência de vida do seu autor, John Green – que tem lá seus trinta e seis anos e formação acadêmica. Logo, eles têm a perspectiva de vida e a fala de alguém muito além da sua idade. Além disso, os adultos da história, particularmente os pais (segundo Challies) são descritos de maneira tola e superficial. Preste atenção neste universo criado por Green: jovens com experiência e sabedoria além da sua idade e adultos bobs que pouco entendem da vida. É óbvio que um jovem que lida com câncer ganha uma perspectiva diferente da vida, uma visão de mundo mais séria e grave (tal qual Ester Grace). Mas Hazel e Augustus não são reais. Eles não pensam como o jovem de dezesseis anos mediano. Aliás, o contrário é o mais importante: um jovem de dezesseis anos não tem a autonomia de pensamento nem a fala desses personagens. Mas ele gostaria de ter. O jovem quer “desafiar” seus pais e, por meio da sua (pouca) experiência de vida, “fazer e acontecer”.

Como é próprio da juventude, há uma série de idealizações e expectativas quanto à vida para serem supridas: sejam elas manifestações públicas infundadas (como vemos com o fenômeno de alguns Black blocks, por exemplo) até os desejos do coração, que levam uma jovem a brigar com seus pais e fugir de casa “em nome do amor”, que eles obviamente desconhecem. (A verdade é que, como diria o pai de um adolescente recentemente “puxado” da uma manifestação de Black blocks: “Volta para casa. Quando você tiver emprego e pagar suas próprias contas, aí você vai poder reivindicar seus diretos.”) Ou seja, ao deixar se levar por esta história, ao nos entregarmos ao seu enredo, nos expomos às possibilidade de sermos incitados a uma rebeldia contra a experiência e a autoridade constituídas por Deus sobre as nossas vidas.

Quantos jovens não deixam de lado toda sorte de razão “em nome do amor”? E pior, quantos jovens não desonram seus pais, mães, líderes, pastores, anciãos etc. em nome de algo que eles, supostamente, conhecem mais que suas autoridades? Em nome de uma suposta independência, somos incitados a nos rebelar contra toda e qualquer obediência a Deus, na figura de pais e mães e quaisquer outras autoridades em nossas vidas.

É pecado se entreter com história de amor? De maneira alguma. Não podemos, porém, nos deixar levar por enredos encantadores escritos por pecadores que não honram a Deus.

Se você ou alguém que você conhece quiser ler o livro ou ver o filme, não há problema em fazê-lo, contanto que você leve em conta o que está sendo pregado nessa história. Se o seu filho ou filha quiser assistir, tal como foi o caso de Challies, recomendo uma boa conversa antes e depois do filme para ter certeza que os filhos que Deus lhe confiou não sejam levados ao mal caminho. E, acima de tudo, que nunca nos esqueçamos das palavras de provérbios:

Meu filho, escute o que lhe digo; preste atenção às minhas palavras. Nunca as perca de vista; guarde-as no fundo do coração, pois são vida para quem as encontra e saúde para todo o seu ser. Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida(Pv. 4.20-23)

Andrew MacAllister

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